NOITE AZIAGA

O remorso que agora me consome
e que deixa minh’alma entristecida
é ter morto um cachorro que com fome
procurava manter a própria vida.


E por que a desdita tão tacanha,
nesse magro animal tão pouca sorte,
se em meu prato sobrava uma lasanha
que afastava de mim também a morte?


Foi o próprio destino que assim quis!
Acabar com esse cão, pobre infeliz
e deixar outro ser também sofrendo.


Nessa triste ironia há um conforto:
é que já não mais sofre, ele está morto.
E eu que sofro de angústia vou morrendo!...


Um tiro aleatório, a sessenta e dois metros,
numa noite escura, muito escura e acertei em cheio o animal.


18/11/91 às 23:00 h