NOITE AZIAGA

Morava eu numa fazenda junto aos escombros do velho povoado, Largo das Caatingas, às margens da extinta ferrovia que ligava Jequié a Nazaré das Farinhas, na Bahia de Todos os Santos, onde havia uma meia dúzia de casebres, alguns habitados por pessoas simples e extremamente pobres. Era sempre um constrangimento para mim vê-las assim, tendo como sobrevivência, quem sabe alguma mísera aposentadoria rural e como base a caça e a pesca, precárias também em função da concorrência dos caçadores, que eram muitos, vindos da cidade, a dez quilômetros.
Os magros cachorros caçadores dos sobreviventes do povoado, as vezes apareciam em minha casa à procura de alguma migalha que lhes pudesse enganar o estômago.
Os meus cães de guarda — Fera e Feroz — juntos não pesavam mais que uns cinco quilos.
Num desses domingos em que acordamos mais tarde e o desjejum se dá por volta do meio dia, ficamos naturalmente com o estômago enganado até quase à boca da noite, quando a minha mulher teve a idéia de fazer uma lasanha. Em função do manjar, começamos a comemoração antecipada com cerveja. Ela, marinheira de primeira viagem e perfeccionista, começou a labuta da culinária lendo uma receita e procurando seguir à risca toda a orientação ali descrita. Trigo molhado e amassado, algum tempo de espera para a fermentação, enquanto regávamos a barriga com a bendita cerveja. A essa altura já estávamos mais alegres e interessados na bebida do que mesmo no novo prato a ser por ela preparado. As porções descritas na receita foram naturalmente alteradas na mesma proporção do efeito da bebida.
Enfim, lá pelas onze da noite estava pronto o manjar. Com certeza íamos ter que exportar parte da iguaria para a Itália. A porção cresceu à vontade. Pronto, disse a fina cozinheira com o coração cheio de amor e a cabecinha cheia de nada, meio tonta de bebida. Parti cheio de fome, da varanda de onde curtia Baco e o céu estrelado da noite escura. Ao entrar em casa me deparei com um dos magros cães caçadores, que apesar de subnutrido era grande o suficiente para intimidar minhas duas feras, que estavam humilhadas com os rabos entre as pernas e olhar triste de cão acuado.
Nesse instante fui em socorro aos meus guardiões e enxotei o grandalhão magro, dando coragem aos meus que saíram disparados em perseguição ao infortunado animal. O ganido dos ferozes se ouvia cada vez mais distante e insistentes, quando movido pelo incentivo do velho Baco, não tenho dúvidas, resolvi dar um tiro e dirigi a arma na mesma direção em que eles correram em debandada. O tiro e um ganido de dor. Apenas um. Logo em seguida chegaram as minhas feras com os rabos embandeirados, pêlos do pescoço eriçados e ar de vencedores.
A minha exímia cozinheira, com o sentimento ainda mais aguçado sob o efeito do vinho, ficou achando que o tiro poderia ter atingido um dos cães. Bem, os nossos não foi. Restava então o pobre magro. Ela pegou uma lanterna e foi na direção em que eles correram e minutos depois chegava aos prantos. O cão magricela fora atingido mortalmente. O choro se espalhou por toda a casa, pois só nós dois éramos pouco para tão grande sofrimento. Nos restava chorar de angústia. Eu principalmente, já que fui o autor do disparo. Não se falava mais em lasanha. A fome juntou-se a alma do cão e juntas se foram pro além. Foi uma noite de tristeza. Só conseguimos dormir um pouco depois de vencidos pela angústia. O dia amanheceu e fui ver o infeliz. Estava morto mesmo. Era verdade. Resolvi medir a distância entre o local do disparo e o cão. Sessenta e dois metros. No escuro. Nenhum atirador de elite seria capaz de tal façanha. Só a mão do destino, não tenho dúvidas, (e passei a acreditar no mesmo) seria capaz de tal fatalidade.
Resultado: Fui ao povoado, descobri o dono do cão, paguei-lhe o dobro do preço que ele disse haver custado o animal, fiquei toda a segunda-feira sem comer ao menos uma fruta ou coisa que o valha. Nos olhávamos, eu e minha mulher, com ar de vencidos, humilhados, sem graça, sem consolo, nos sentindo mesmo uns trapos. Ela sofria em solidariedade. A culpa era só minha. Ela fora atingida pelo contágio. Daí pra frente nunca mais falamos em lasanha. Nem nos restaurantes. Lasanha passou a ser sinônimo de tristeza. E atirar, nem mesmo no cão dos inferno. Até este se chegar será bem recebido. A arma, que por muitos anos ficou guardada numa gaveta qualquer, desprezada, como se fosse ela a principal causadora da tragédia, foi entregue e martelada pelos benfeitores do governo no programa do Desarmamento.