MOSTRA-ME

Mostra-me, Deus, suplico, uma saída
para rever, risonho, a minha sorte.
Humilde, peço; muda a minha vida!
Faminta, eu sinto, perto a minha morte.

Todo meu corpo é bambo, sem suporte,
nesse caminho longo, nessa ida.
Obra o milagre de tornar-me forte
pra suportar a dor dessa descida.

Vou esperar, Senhor, o meu pedido,
igual na infância um filho espera o pai.
Não me deixeis seguir desiludido,
pois como o tempo, a esperança vai.

Se os meus pecados foram tão ferrenhos,
Vós permitistes, sim, os praticar.
Mas Vos confesso grande os meus empenhos,
em redimir-me e Vós me perdoar.

A minha bússola, sem o magneto,
que orienta o nosso seguimento,
tem o ponteiro, mórbido, quieto;
sem rumo, sigo onde me leva o vento.

Dores no peito, sinto, insuportáveis,
originadas duma angústia ingrata.
Dá-me, Vos peço, dias mais amáveis,
senão a dor mais forte, vem, me mata.

Não permitais se alongue esse momento,
na busca arfante pelo meu caminho.
Já não suporto mais o sofrimento,
sem norte... envolto num redemoinho.

Prado, 26/03/2006.