Cordel prometido ao amigo e grande poeta sertanejo Isaac Nunes Filho, em ocasião do grave acidente que o vitimou num treino de vaquejada, na véspera do Natal de 1984, no Rancho do Guigó, em Vitória da Conquista – BA, e recitado, dois meses após, na festa comemorativa da sua recuperação.
Foi num treino de vaqueiro,
em que eu cheguei primeiro,
que o acidente aconteceu...
Também pudera, coitado,
correu até Deputado
e até criança correu!...
A pista estava ‘inda em obra
e numa ingrata manobra,
que foi a essência do mal.
A rês veloz fez a ginga
e Isaquim “chei” de pinga,
se despencou de Cristal.
Caiu com tudo, embalado,
um tanto quanto enviesado
e deu de ombro no chão,
quebrou nariz, partiu osso,
foi um vexame, seu moço,
e perfurou o pulmão.
Mas o socorro foi breve
e esse que aqui descreve
no instante se apeiô.
Perdeu o jeito de “‘esteira”
e assumiu desta maneira
a condição de doutô...
(É bom juntar na fazenda
um pingo bom, uma prenda
e um amigo tão gentil,
que “corre boi” com a gente,
faz um cordel num repente,
na medicina é servil.)
Mas o alvoroço era grande
e pensei... nós que se mande
bem ligeiro pro Hospital.
Levei lá pro São Vicente,
que tem amigo da gente,
uma equipe fraternal.
E no meio do caminho
percebi que o colarinho
já nem cabia o pescoço.
Eu vi logo que o inchaço
vinha desde lá do braço
mas não era só do osso.
Crepitando sob os dedo,
inchando de fazer medo,
o meu amigo, Isaquinho,
estava com enfisema,
os ói vermei como gema,
respirando bem ruinzinho.
Era um tal pneumotórax
e não pode tomar lórax,
apesar da agitação.
Tomou torpedo de ar puro;
o negócio tava duro,
precisando operação.
E na hora do preparo,
o coração sente o faro
e começa um baticum.
Enquanto a roupa é trocada,
cai no chão a chuvarada
de tanta bala dum-dum.
Não tinha visto um vaqueiro,
quanto mais um cavaleiro
ser assim levado à breca.
Trinta e oito na cintura,
na garganta pinga pura
e munição na cueca.
Foi preciso botar dreno,
borracha de propileno,
pelo espaço intercostal,
compensando aquele furo
e o pulmão que estava duro,
na cavidade pleural.
Já depois de tudo feito
— Doutô Hugo deu seu jeito
inda chamou o Renê —
embalaram o bom cliente
enfaixando o braço rente
que é pra mode não mexê.
Secou ligeiro o Isaquinho
e ficou logo murchinho
quando o enfisema desfez.
O pulmão se expandindo
e a turma toda sorrindo
já relaxada de vez.
Do susto ficou lembrança,
conselho de temperança,
mas é preciso lembrar:
pior que qualquer ferida
é ficar velho na vida
sem ter nada pra contar!...
Ao Isaac o meu abraço
por sua fibra de aço
e seu cavalo Cristal.
E à família simpatia
tolerando nós um dia,
numa véspera de Natal.
Dois meses após o acidente, Isaac já completamente recuperado, procedeu-se à inauguração do Rancho do Guigó, com extraordinária afluência amiga e muita farromba. Lá estava o nosso anfitrião, em plena e inquieta atividade. O cavalo Cristal pisava leve, lépido qual pé de vento; tinha a volúpia nos cascos como que garboso e intrépido, pretendesse forrar a lembrança e o infortúnio daquele dia aziago. O convite para esta festança foi vazado nos seguintes versos:
“Vá ao rancho preparado
pra ver a festa completa
cavalo e motocicleta
se misturando com gado.
Lá tem corrida de prado,
leilão para o fazendeiro,
enduro pra motoqueiro,
churrasco, arena, tourada,
tem festa de vaquejada
e provas de picadeiro.”
“ Vá ao Rancho do Guigó,
comer cuscuz com coalhada,
requeijão com rapadura,
macaxeira e carne assada,
beber pinga com raiz,
sorrir e sair feliz,
ver cavalo e vaquejada.”
Quem não foi, perdeu, e não recupera mais, porque um encontro daquele é como a brisa que chega, refresca, passa e não volta.