ODE A UM GIBOIEIRO

Ao meu polivalente amigo Ernane Gusmão, versos recitados no Clube do Canário, em Vitória da Conquista, em fevereiro de 1985, na noite do lançamento do livro “O Giboieiro”.

A ti, vate companheiro,
das corridas de mourão,
te louvo com emoção,
pois dos teus fãs sou primeiro.
E hoje aqui prazenteiro
espero que o verso emane,
todo meu peito se ufane
para dizer com vaidade
da tua capacidade
oh bardo, poeta, Ernane!

Eu não vou discutir métrica
e nem mesmo aritmética;
quero falar de genética
que é coisa da criação.
Herdou sangue de vaqueiro,
esse doutor altaneiro,
da gema do Giboieiro
você, Ernane Gusmão!

(O Giboieiro é conhecido
por sua disposição.
Se for preciso, até briga*;
não escolhe ocasião.
Também faz verso bonito,
de um bom gosto infinito,
tirado do coração.)

Teve esse clube o fadário
de promover o sarau,
afastar de todo o mal,
tornando-se um santuário.
Não tem briga de canário
nem de galo de campina,
mas tem da poesia a mina
que ninguém aqui se engane
pois a jazida é Ernane,
bom de verso e medicina.

Você contou minha história,
falou das balas dum-dum,
disse do meu baticum
tenho tudo na memória.
Isso me enche de glória
pois o tive como abrigo,
esteve sempre comigo
e ficou sempre ao meu lado
eu ofegante, cansado,
mas confiante no amigo.

Quando vim lá do rancho pro hospital,
já depois de sofrer o acidente,
apesar de quebrado, consciente
que havia caído de Cristal*.
Mas, seguro, sabia que o meu mal
meu amigo o curava sem peleja.
Com um chá de alumã ou de carqueja
e bebida bendita na moringa,
o meu “bucho” e a cabeça era só pinga,
meu doutor, na barriga, só cerveja.

No pronto socorro já quase um expurgo,
deitado no lastro da velha pick-up,
Ernane pensava “talvez não escape”
mas como milagre surgiu Dr. Hugo.
Por entre as costelas botou-me um “tarugo”,
um dreno perfeito para me salvar;
Carlos Eduardo depressa a enfaixar,
clavícula quebrada furando o pulmão,
e a Dra. Dayse na respiração
espantava a morte pra não me levar.

Então foi assim que eu quase morria!!!
passei agonia e grande sufoco;
sou grato aos doutores, me deram de troco
a vida bonita que eu sempre vivia.
E hoje, assustado, peço todo dia
a Deus que me livre de outra aflição.
Porém, bem montado num bom alazão,
e tendo certeza da proteção médica,
renal, pulmonar e também ortopédica,
eu corro outra vez com Ernane Gusmão.

*Essa parte é com os outros Giboieiros. Você é do bem... tá fora.