DIVAGANDO

Deitado na rede, ouvindo a cantiga
Que mais me intriga nas coisas daqui:
O pio pesaroso do Anu, do Sanhaço
Rasgando o espaço, o som: Bem-te-vi


Eu ouço a Rolinha daqui d’onde estou
A Fogo- pagou, Jandáia, “Priquito”
Fazendo algazarra, o tal João-de-barro
Seu canto bizarro tinindo no grito


Num som de maestro que tudo destrincha
“Bramindo”, a Garrincha reclama seu ninho
Bem feito com folhas, com pena e garrancho
Onde dorme ancho, incauto, o filhinho


Das aves canoras do lindo cenário
Estala o Canário no seu curruchio
Sofrê imitando um Coqui a cantar
E o bom Sabiá gorjeia o baixio.


As Garças voejam ao sol matinal
Deixando o ninhal, buscando alimento
Marcado em compasso num eco estrondoso
Urrando, garboso, “troveja” um Jumento.


E nessa cadência os sons vão surgindo
a vaca mugindo, o Touro esturrando
um Potro relincha, dispara contente
A égua presente ao lado escoltando.


Ovelhas pastando, não longe daqui
Emitem o bali num som pesaroso
O eco sumindo no vasto infinito
Responde o Cabrito num berro choroso.


Contemplo um canteiro com flores vermelhas,
Ornadas de Abelhas, o néctar colhendo;
E num vai e vem as mil operárias
Com tarefas várias, desaparecendo.


Ouvindo o zumbido, ninguém faz idéia
que voltam à colméia, seu lar, seu torrão,
levando alimento à Dona Rainha,
furtiva e mansinha ao vôo do Zangão.


Com garras expostas, “Minréis”, meu felino,
rateiro azulino, miando, insistente,
enfrenta encrespado a mini cadela,
saltando à janela fungando valente.


A minha matilha de Cães pequeninos,
caçadores finos de sons e farejo,
ladrando em conjunto fazendo arruaça,
severa ameaça ao vil malfazejo.


(São eles: Robalo, o pai da matilha,
seguindo na trilha a mãe, Matrinxã,
que gerou Piaba, que deu a avó
feroz Pocotó, rainha do clã.


Orelhas alertas, tal qual um esquilo,
rosnando, “ Meiquilo” parece um trovão;
e a “nêga” assanhada que em tudo se mete,
“laivem” Maluquete e o mau Tubarão).


Eu peço insistente ao sol que não fuja;
porém, a Coruja, crucita um mistério,
avisa que é noite e só amanhã
se ouve Acauã num canto saltério.


A noite silente desperta assustada
quando é madrugada, com o canto do Galo
que rufla imponente, as asas batendo,
e ela, morrendo, perdendo seu halo.


E nessa mistura de aves e bichos,
Deus mostra os caprichos da mãe natureza
serena, altaneira, fiel ,dadivosa,
nos dando, garbosa, mais vida e beleza.


Que vida encantada, que som, que alegria
tenho todo dia nas quatro estações;
na rede chorosa, me esqueço os entraves
e o canto das aves me leva aos rincões.


O tempo é bonito de sonho e quimera,
vivendo à espera das aves felizes,
apoio à parede o pé, me balanço
de ver não me canso, do verde os matizes


Aqui bem tranqüilo, aguardo o destino
tal qual um menino à espera do pai,
lembrando o passado, de paz, de bonança
e a rede balança no seu vem e vai.


Curtindo a modorra, me entrego ao cochilo
em tão grande estilo de velho..., ancião,
que as coisas eu vejo aos poucos sumindo
e acabo dormindo com o lápis na mão.


Pouso do Guerreiro, 05 de maio de 04.