Sou tocador de flauta, apenas isto.
Vivo tocando pelos caminhos.
Aprendi a tocar com seres vários:
Com as rãs dos charcos e com os passarinhos.
Por isso minha música é variada,
toco árias do inseto ao rouxinol,
à folha, ao vento, aos véus da madrugada,
à pedra, à água, ao musgo, ao pôr-do-sol...
Ao som canoro que à tristeza encanta,
de asas povôo a solidão e, ardente,
loas entôo a Jesus Cristo e pairo
sobre os silvos gelados da serpente.
Minha mãe me ofertou (eu era criança)
uma flauta de lata, um instrumento
imperfeito, incompleto; devo a ela
essa felicidade, esse tormento.
Ainda hoje a mesma flauta empunho,
a vida, a morte já me visitou.
Minha grande mágoa é que na dor mais funda
minha flauta, engasgada, se calou.
Tanjo canções de amor e tu não danças;
meu som não ouves, meu irmão. E, assim,
nada me importa: tocador de flauta,
na sombra irei tocando até o fim.
Jorge de Assis Peixoto
Nanuque- MG, 2003