Nota do Autor:

Na apresentação feita nos livros anteriormente publicados, contei fatos e falei de pessoas que me influenciaram e incentivaram à realização dos mesmos. Porém, agora, conto um pouco da experiência que tive com os primeiros.

No dia do lançamento e nos dias subseqüentes, recebi muitos elogios dos amigos (só depois é que fui ver que eram “mui amigos”) dizendo ser o livro uma obra prima, uma maravilha, que os meus “vocábulos” enriqueciam a literatura da língua portuguesa, diziam ser eu o verdadeiro poeta contemporâneo, o expoente legal da poesia universal, etc., etc. Bem... adjetivos não faltaram enaltecendo o meu trabalho. Pareciam até estarem falando numa língua estrangeira. A terminologia empregada era mesmo erudita (aliás, estas palavras metidas a “biscoito de lata” que estão acima já foram plagiadas). Eu não conhecia aquelas expressões, fiquei maravilhado achando que era bom mesmo e que eles estariam falando a verdade, puramente a verdade. Não hesitei; parti para o campo das vendas. Distribui nas livrarias, bancas de revistas, com amigos, etc., tudo em consignação, pensando, é claro, em passar a viver com o resultado das vendas. Ficar rico até. (Cinco reais cada exemplar).
Nos primeiros dias, sonhava como poeta de verdade sonha, nem precisava dormir. Fazia e desmanchava contas só pensando nos lucros, na mudança de vida. Mas não demorou muito e a frustração foi tomando conta de mim. (A propósito, vocês sabem dizer se máquina calculadora fala? Pois com as continhas que andei fazendo - eu disse continhas, porque troquei as pilhas apenas uma meia dúzia de vezes- teve um dia que ouvi um gemido de dor, um “ai” de cansaço, e acho que foi ela. Ou melhor, tenho quase certeza. Coitada, já sentia os maus presságios. Já começava a se frustrar por antecipação: “tanto esforço para nada”, por Deus que pensava). Os amigos, as livrarias, as bancas de revistas, me davam notícias, apesar de consoladoras, nada alvissareiras. Aguardei mais um pouco na esperança de que fosse aquela rejeição pela leitura apenas uma crise literária, mas que passaria rápido. Depois de mais algum tempo, quando concluí que ninguém comprava mesmo, fui recolhendo-os (ah livros!!!) e a estante ficou cheia. Fiquei algum tempo sem saber o que fazer com eles. “Faça um lançamento em Itabuna, na ponte Marabá sobre o rio Cachoeira”, sugeriu minha filha. Mas tive um pouco de cautela. Afinal, tanto material gasto e ver se desfazer dentro d’água! Não... não. Tenho que ter paciência tenho que ser forte, tenho que encontrar uma forma de me desfazer deles sem tanto constrangimento. Esperei amadurecer a idéia. Um ano se passou e apareceu a solução: Dar os ditos. Não perdi tempo. Comecei a mandar livros para as pessoas que eu conhecia e as que eu não conhecia também. Era só “viajando” para o correio fazendo postagem, entregando pessoalmente, através de terceiros, etc., contanto que desse. Pronto. Acabou. Agora estou mais feliz. Ou menos constrangido, digamos assim. Mas, para minha tristeza, não demorou muito e voltou o pesadelo (lembram que no começo foi sonho, ou não se lembram?). As pessoas começaram a devolvê-los, cada qual com pretextos mais deslavados: “Olha, estou devolvendo porque tenho estado muito atarefado e não me sobra tempo para a leitura”, “Fiquei com receio do meu guri, que é muito travesso, rasgar”. Teve até quem dissesse que devolveu porque a mulher ficou com ciúmes, com medo dele se envolver com outras, pois considerava “aquilo”, um incentivo à traição. Bem, foram mais dois anos de angústia e sofrimento quando os olhava na estante. Todavia, Deus é pai, não é padrasto e me deu a luz que faltava... a idéia genial... pagar para as pessoas aceitarem. Pronto! Está decidido. Mas... surgiu outro impasse: quanto pagar? Porém, com a ajuda do editor e mais alguns amigos (não aqueles dos elogios, é claro, eles podiam me boicotar fazendo um preço muito baixo e eu ter que recebê-los de volta novamente), chegamos a um preço que me pareceu módico e tentador ao mesmo tempo, já que atravessávamos uma crise financeira. Cinqüenta reais. Apenas com uma exigência: na hora do pagamento as pessoas deveriam provar que leram algum trecho. (Teve um que disse: “se quiser pagar, pague, mas o comentário acho melhor você não ouvir. É...”). Êpa! Já chega! Pronto! Tô satisfeito! E bati “mãos ao bolso” para pegar o dinheiro, quando tive a essência das idéias: descontar o preço preestabelecido na época do lançamento (cinco reais). E, apesar do protesto feito pelo novo cliente, fui rígido, não abri mão, só paguei quarenta e cinco reais.
Mas, histórias curiosas foram surgindo. Certo dia entrei numa agência da Caixa Econômica, onde minha conta bancária estava um tanto “fracativa”, quando fui abordado pelo segurança, que tinha cara de segurança mesmo e disse: “Seu Isaac, estou lendo o seu livro de poesias e estou gostando muito. Eu e meu filho. Nós estamos decorando. Já memorizamos quase todo”. Tomei um susto que quase caio, não fora a ajuda duma cadeira que estava ao lado. Sentei-me imediatamente. Depois de recobrar as forças, (aliás, parcialmente as forças, porque até hoje fico trêmulo, sou tomado pela adrenalina, quando me lembro do episódio) conversei mais um pouco e descobri ser ele um remanescente da época em que eu havia dado os mesmos. Fiquei mais tranqüilo. Ainda assim, encerrei a conta, mudei de banco, para não correr o risco de ter que pagar àquele monstro sagrado, àquele apologista de primeira grandeza, já que se tratava dum segurança e como tal, poderia querer usar a força para receber a sua parcela. Resta-me agora pedir a Deus para que ele não descubra que entre as tentativas de me desfazer dos livros, houve também essa forma, com pagamento, e querer receber na proporção dos comentários.
E assim, com essa astúcia, consegui vender todo o meu estoque. Defendi o prejuízo.
Na esperança de encontrar novos incautos, aqui vou eu novamente e que Deus seja louvado.