Pediu-me Isaac a espinhosa missão de apresentar seu belo trabalho. O faço constrangido pela incompetência.
A poesia, como já se encontra consagrada, é uma manifestação artística de uma idéia impregnada de afetividade. É, no meu modesto entendimento, a mais intelectual das artes. A que mais apela para o intelecto propriamente dito, e uma daquelas que mais dependem da sensibilidade provocada pela inspiração.
“Non al suo amante più Diana piacque,
quando per tal ventura tutta ignuda
la vide mezzo de le gelide acque
ch’a me la pastorella alpestra e cruda
posta a bagnar um leggiadretto velo
ch’a l’aura il vago e biondo capet chuida
tal che mi fece, or quand’egli arde ‘lcielo
tutto trema d’um amoroso gielo”
PETRARCA
“Não foi tão bela Diana a seu amado,
Quando por sorte a viu, inteira, nua,
Banhando o suave corpo delicado;
Como a mim a pastora alpestre e crua
Quando lavava o tão gracioso manto
Que de aura esconde a cabeleira sua.
Na sazão em que o céu tanto arde, tanto,
Faz-me tremer de um amoroso encanto”
(Tradução de Jamir Almansur Haddad).
Lendo atentamente o livro de Isaac, repleto de romantismo e erotismo, não foge da mente estes versos de Francisco Petrarca, segundo alguns, o inventor ou pai do soneto, segundo outros, criado pelo trovador francês Girard de Bouneuil, em 1278, ou ainda, no dizer de outros, pelo italiano Petrus de Vineis e levado para a França por Sain Gelais. É a mais bela de todas as formas líricas de poema, dada a primorosidade de sua construção, estrutura, versificação, inspiração e imaginação geniais; “É um pensamento de ouro num cárcere de aço”. “Deve abrir com chave de prata e fechar com chave de ouro”. Compõe-se de duas quadras e dois tercetos. (O soneto é composição pequena, mas difícil de fazer, como todas as composições literárias pequenas: a quadra, de 7 sílabas (com 4 rimas), o conto, a peça de teatro em 1 ato e a carta simples mas expressiva). Basta reparar que são raríssimas as composições deste gênero que são célebres. Na época clássica o verso empregado era o decassílabo, tendo as duas quadras as rimas entrelaçadas geralmente. Nos dois tercetos a disposição das rimas variava. Como, às vezes, a idéia não ficava toda expressa nos 14 versos do soneto, acrescentavam-lhe os poetas um estrambote, ou cauda, de um, dois ou três versos mais. O estrambote desapareceu há muito tempo. Dada a liberdade de formas implantada com o romantismo, vêm-se, depois, sonetos, em que as rimas da primeira quadra não rimam com as da segunda, em que os versos são de menos de 10 sílabas (sonetilhos) ou mais de 10, e que aparecem primeiro os tercetos e depois as quadras.
Por aqui se vê que, para se fazer um verso perfeito, é preciso acepilhá-lo, dar-lhe vivacidade e tom, porque a verdadeira poesia tem por base a forma. Não quer isso dizer que se deve desprezar a idéia, ao contrário, a idéia deve ser elevada, vestida, porém, pela forma mais elegante. (Apud Histórias da Literatura, pg.23/24, José Marques da Cruz, Ed.Melhoramentos, 8ª Edição, 1956).
Isaac ainda se encontra fincado no rigorismo da forma, da métrica, da rima, aspectos somente encontrados em grandes poetas, tais como Bilac, Machado de Assis, Augusto dos Anjos, entre tantos, bem mais distante Gregório de Matos, e o maior de todos: Camões.
Por lembrar Camões, alguns autores desatentos o consideram plagiador de Virgilio e Petrarca. Ocorre que no século XVI, alguns poetas seguiam tão de perto os mais famosos e por eles admirados, que a impressão de plagio ficava. Não é o caso de Isaac. Segundo ele, Isaac, não é do seu feitio ler, hábito que não cultuou. Difícil acreditar em tal afirmação, pois o conhecimento expressado, as citações, o enlevo no desenvolvimento da estrutura dos seus poemas, rigorosamente metrificados, não deixam dúvidas de que em alguma fonte foi ele beber o seu saber.
No poema Malha de Amor, ficou provado o que se disse acima, quando ele a convida para vir “tecer com tricô e emoção/ u’a malha de amor pra um coração/ que precisa contigo fadejar”;
Ou ainda quando lamenta a dor que sente comparando com a que os outros padecem com igual intensidade. Os versos são todos voltados e dedicados ao amor, às vezes com sentimento apurado, outras com dor, tristeza e mágoa.
Sinto-me lisonjeado e despreparado para tecer comentários sobre um trabalho tão apurado, digno dos mais imponentes vates pátrios, contemporâneos, apesar de contrariarem a posição de Isaac que não perdoa, não aceita poesia livre, concreta, sem rima, como Carlos Drumonnd de Andrade, Mário Quintana, e alguns versos de Manuel Bandeira entre outros, sem se lembrar que poesia não é feita somente com versos milimetricamente metrificados e com rima rica e sonoridade musical.
Sofre evolução de acordo com a época em que se situa, passando por várias fases.
É um trabalho árduo, profícuo, longevo, maturado na pátina do tempo e da experiência. Não fui apanhado de surpresa, pois merece ser lido, apesar de não ser crítico, longe dessa pretensão, porém apreciador do belo.
Teixeira de Freitas, 06 de abril de 2005.
Ary Moreira Lisboa
A poesia, como já se encontra consagrada, é uma manifestação artística de uma idéia impregnada de afetividade. É, no meu modesto entendimento, a mais intelectual das artes. A que mais apela para o intelecto propriamente dito, e uma daquelas que mais dependem da sensibilidade provocada pela inspiração.
“Non al suo amante più Diana piacque,
quando per tal ventura tutta ignuda
la vide mezzo de le gelide acque
ch’a me la pastorella alpestra e cruda
posta a bagnar um leggiadretto velo
ch’a l’aura il vago e biondo capet chuida
tal che mi fece, or quand’egli arde ‘lcielo
tutto trema d’um amoroso gielo”
PETRARCA
“Não foi tão bela Diana a seu amado,
Quando por sorte a viu, inteira, nua,
Banhando o suave corpo delicado;
Como a mim a pastora alpestre e crua
Quando lavava o tão gracioso manto
Que de aura esconde a cabeleira sua.
Na sazão em que o céu tanto arde, tanto,
Faz-me tremer de um amoroso encanto”
(Tradução de Jamir Almansur Haddad).
Lendo atentamente o livro de Isaac, repleto de romantismo e erotismo, não foge da mente estes versos de Francisco Petrarca, segundo alguns, o inventor ou pai do soneto, segundo outros, criado pelo trovador francês Girard de Bouneuil, em 1278, ou ainda, no dizer de outros, pelo italiano Petrus de Vineis e levado para a França por Sain Gelais. É a mais bela de todas as formas líricas de poema, dada a primorosidade de sua construção, estrutura, versificação, inspiração e imaginação geniais; “É um pensamento de ouro num cárcere de aço”. “Deve abrir com chave de prata e fechar com chave de ouro”. Compõe-se de duas quadras e dois tercetos. (O soneto é composição pequena, mas difícil de fazer, como todas as composições literárias pequenas: a quadra, de 7 sílabas (com 4 rimas), o conto, a peça de teatro em 1 ato e a carta simples mas expressiva). Basta reparar que são raríssimas as composições deste gênero que são célebres. Na época clássica o verso empregado era o decassílabo, tendo as duas quadras as rimas entrelaçadas geralmente. Nos dois tercetos a disposição das rimas variava. Como, às vezes, a idéia não ficava toda expressa nos 14 versos do soneto, acrescentavam-lhe os poetas um estrambote, ou cauda, de um, dois ou três versos mais. O estrambote desapareceu há muito tempo. Dada a liberdade de formas implantada com o romantismo, vêm-se, depois, sonetos, em que as rimas da primeira quadra não rimam com as da segunda, em que os versos são de menos de 10 sílabas (sonetilhos) ou mais de 10, e que aparecem primeiro os tercetos e depois as quadras.
Por aqui se vê que, para se fazer um verso perfeito, é preciso acepilhá-lo, dar-lhe vivacidade e tom, porque a verdadeira poesia tem por base a forma. Não quer isso dizer que se deve desprezar a idéia, ao contrário, a idéia deve ser elevada, vestida, porém, pela forma mais elegante. (Apud Histórias da Literatura, pg.23/24, José Marques da Cruz, Ed.Melhoramentos, 8ª Edição, 1956).
Isaac ainda se encontra fincado no rigorismo da forma, da métrica, da rima, aspectos somente encontrados em grandes poetas, tais como Bilac, Machado de Assis, Augusto dos Anjos, entre tantos, bem mais distante Gregório de Matos, e o maior de todos: Camões.
Por lembrar Camões, alguns autores desatentos o consideram plagiador de Virgilio e Petrarca. Ocorre que no século XVI, alguns poetas seguiam tão de perto os mais famosos e por eles admirados, que a impressão de plagio ficava. Não é o caso de Isaac. Segundo ele, Isaac, não é do seu feitio ler, hábito que não cultuou. Difícil acreditar em tal afirmação, pois o conhecimento expressado, as citações, o enlevo no desenvolvimento da estrutura dos seus poemas, rigorosamente metrificados, não deixam dúvidas de que em alguma fonte foi ele beber o seu saber.
No poema Malha de Amor, ficou provado o que se disse acima, quando ele a convida para vir “tecer com tricô e emoção/ u’a malha de amor pra um coração/ que precisa contigo fadejar”;
Ou ainda quando lamenta a dor que sente comparando com a que os outros padecem com igual intensidade. Os versos são todos voltados e dedicados ao amor, às vezes com sentimento apurado, outras com dor, tristeza e mágoa.
Sinto-me lisonjeado e despreparado para tecer comentários sobre um trabalho tão apurado, digno dos mais imponentes vates pátrios, contemporâneos, apesar de contrariarem a posição de Isaac que não perdoa, não aceita poesia livre, concreta, sem rima, como Carlos Drumonnd de Andrade, Mário Quintana, e alguns versos de Manuel Bandeira entre outros, sem se lembrar que poesia não é feita somente com versos milimetricamente metrificados e com rima rica e sonoridade musical.
Sofre evolução de acordo com a época em que se situa, passando por várias fases.
É um trabalho árduo, profícuo, longevo, maturado na pátina do tempo e da experiência. Não fui apanhado de surpresa, pois merece ser lido, apesar de não ser crítico, longe dessa pretensão, porém apreciador do belo.
Teixeira de Freitas, 06 de abril de 2005.
Ary Moreira Lisboa